Crítica I Michael
Nas guerras a cavalo da antiguidade era melhor ter já um grande cavaleiro e ensiná-lo a atirar com arco e flecha ou já conseguir um grande arqueiro e lhe ensinar a cavalgar? Em Hollywood quando se trata de biografias esse dilema se apresenta na forma de já ter um bom ator e torná-lo razoavelmente semelhante fisicamente com o personagem ou obter alguém bem parecido com a pessoa biografada e treina-lo como ator? No cinema, historicamente, optou-se em priorizar o ator – como no caso do vencedor do Oscar Rami Malek que ganhou Melhor Ator por ‘Bohemian Rhapsody‘ – entretanto, em ‘Michael’ (idem – 2026) a coisa se deu arriscadamente ao inverso. Sim, na biografia do Rei do Pop foi escolhido para interpreta-lo o seu sobrinho, Jaafar Jackson, que apesar de enorme semelhança com o astro e ser um excelente dançarino, não possui qualquer experiencia artística dramática até esse momento. Aposta arriscada, mas o jovem ator deu conta do aguardado trabalho com o tempo que possuía e claro, encarnou como ninguém seu falecido tio nos momentos de danças como poucas pessoas no mundo conseguiriam.
O diretor Antoine Fuqua (da trilogia ‘O Protetor‘ com Denzel Washington) quis apresentar um longa com o maior número possível de recriações dos famosos clips musicais e apresentações ao vivo de Michael Jackson pois é impossível não balançarmos – no mínimo – a cabeça ao som de Thriller’ e ‘Beat It’ Algo interessante no roteiro de John Logan é o grande destaque a banda Jackson Five composta por Michael e seus irmãos no início da carreira o que é praticamente desconhecido até para os fãs do astro que já o conheceram na carreira solo com os icônicos álbuns Off the Wall (1979), Thriller (1982) e Bad (1987), muito embora o longa insista em manter a presença dos irmãos em todos os três atos da obra até o seu desfecho. Na trama, confirmamos o que já era sabido do público que seu pai Joe Jackson – interpretado pelo competente ator Colman Domingo – privou seus filhos com mão de ferro de uma infância normal para se aventurarem no show business muito precocemente em uma tentativa de saírem da pobreza. Amado pelo mundo mas sendo de fato uma pessoa muito solitária, Michael Jackson encontrava nos animais e histórias infantis seu refúgio para esquecer os traumas da infância e lidar os problemas da fama.
Fica explícito que a obsessão do astro por temas ligados a Peter Pan (sua casa se chamava Neverland) ocorria porque ele gostaria de voltar a ser criança para quem sabe ter uma infância normal, o que sabemos que nunca aconteceu pois ele cresceu nas turnês, palcos e assédio do público. O elenco de apoio além de Colman Domingo – que desde já mereceria uma indicação ao Oscar por ator coadjuvante – conta com o versátil Miles Teller como John Branca, advogado da indústria do entretenimento que se torna agente do musicista e que até hoje cuida do acervo do cantor. O longa recriou com maestria o grave acidente do comercial da PEPSI onde o astro teve queimaduras de terceiro grau no couro cabeludo, entretanto optou por reeditar e excluir referências diretas a acusações de abuso sexual dos anos 90, devido a acordos judiciais, concentrando-se mais no sucesso artístico e na vida pessoal do astro, o que não comprometeu em demasia a trama.
Com uma vasta carreira musical seria impossível agradar a todos e certamente cada pessoa sentirá a ausência de algum musical e eu particularmente gostaria de ter visto ‘They Don’t Care About Us” com o Olodum gravado no Brasil, mas entendo que comprometeria a narrativa com o excesso de números musicais sem contar que a duração do longa ficaria impraticável. Em conversas informais com demais críticos na saída da cabine de imprensa (dia 14/04) ouvi bastante que foi igualmente sentido a ausência dos bastidores do famoso clipe filantropo ‘We Are the World‘ de 1985 que uniu vários artistas da época em um conjunto harmônico musical jamais recriado novamente até a data. ‘Michael’ já era pra ter sido lançado em 2024, mas a Lionsgate optou por adiá-lo para abril de 2026, tornando-se umas das melhores biografias do gênero e imperdível para os fãs de todas as idades. Finalmente, foi revelado que ‘Michael’ possui bastante material já gravado que não entrou no corte final e que possivelmente – embalado por uma excelente bilheteria mundial – será mostrado em uma (quase certa) sequência a qual o próprio longa original em seus créditos finais já deixa esse spoiler bem registrado – sem qualquer receio – ao exibir a frase: ‘ A história continua…’.
Muito Bom Ficha Técnica: Título: MICHAEL (IDEM)
País/Ano/Duração: Estados Unidos, 2026, 127 min.
Classificação: 12 anos
Gênero: Cinebiografia, Drama, Musical
Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: John Logan
Produção: Graham King
Estúdio: GK Films, Lionsgate
Distribuição no Brasil: Universal Pictures
Estreia: 23/04/2026
Elenco: Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller, Kendrick Sampson 
