Crítica I ZONA ZERO
‘Zona Zero’ (Colony) é daqueles filmes que deixam uma sensação curiosa depois dos créditos: ao mesmo tempo em que impressiona pela intensidade e pela criatividade de sua ameaça, também carrega inevitavelmente o peso de ser comparado a obras anteriores do mesmo diretor. Yeon Sang-ho alcançou um patamar difícil de superar com ‘Invasão Zumbi’, filme que conseguiu transformar uma história de mortos-vivos em um espetáculo de ação tão frenético quanto emocional. Em ‘Zona Zero’, porém, o cineasta parece menos interessado em repetir aquela fórmula e mais disposto a explorar novas possibilidades dentro do gênero. O resultado talvez não tenha o mesmo impacto emocional de seu trabalho mais famoso, mas compensa isso com uma atmosfera sufocante e uma ameaça que se torna progressivamente mais perturbadora. A história parte de uma premissa relativamente simples: durante uma conferência de biotecnologia, um antigo funcionário decide acertar contas com a empresa responsável por sua demissão e libera dentro do prédio um fungo capaz de infectar os presentes. O que começa como um ato de vingança rapidamente se transforma em uma luta desesperada pela sobrevivência. Presos em um enorme edifício e cercados por uma infecção que parece fugir completamente ao controle, os personagens precisam não apenas encontrar uma saída, mas compreender contra o que estão lutando.
É justamente nesse aspecto que ‘Zona Zero’ encontra uma de suas maiores forças. Em vez de apresentar uma infecção convencional, o filme transforma o fungo em algo quase orgânico, imprevisível e assustadoramente adaptável. Os infectados não permanecem estáticos durante o processo de transformação. Eles mudam, aprendem e desenvolvem comportamentos cada vez mais ameaçadores, fazendo com que a sensação de perigo aumente à medida que a história avança. Há uma espécie de evolução monstruosa acontecendo diante dos nossos olhos, e Yeon Sang-ho sabe explorar muito bem o desconforto provocado por essa transformação. Visualmente, o filme também encontra soluções bastante interessantes para criar tensão. O espaço fechado do edifício funciona quase como um personagem, oferecendo corredores, salas, escadas e ambientes de trabalho que rapidamente deixam de parecer familiares e passam a transmitir uma sensação constante de ameaça.
A direção utiliza esse cenário para criar sequências de perseguição e confronto que conseguem ser violentas sem depender exclusivamente de sustos fáceis. Quando os infectados começam a se movimentar de maneira diferente, rastejando e demonstrando comportamentos cada vez mais animalescos, o filme ganha uma identidade própria dentro do gênero. O elenco contribui bastante para esse resultado. Jun Ji-hyun assume o centro da narrativa com uma presença que cresce conforme sua personagem é colocada diante de situações cada vez mais extremas. Inicialmente apresentada como alguém aparentemente comum dentro daquele ambiente, ela ganha força à medida que a sobrevivência exige decisões mais difíceis. Koo Kyo-hwan, por outro lado, encontra espaço para construir um personagem cuja trajetória é particularmente interessante. Suas motivações iniciais podem até despertar alguma compreensão, mas a maneira como elas se transformam ao longo da história revela como o desespero pode rapidamente apagar os limites entre vítima e ameaça. Ainda que ‘Zona Zero’ não alcance a mesma carga emocional de Invasão Zumbi, seria injusto tratá-lo como uma decepção simplesmente por não repetir o impacto daquele filme.
Comparações desse tipo acabam funcionando mais contra a nova produção do que a seu favor. ‘Zona Zero’ possui seus próprios méritos e, principalmente, demonstra que Yeon Sang-ho continua disposto a experimentar dentro de um gênero que já explorou de diferentes maneiras. Talvez a maior surpresa esteja justamente no comportamento dos infectados. Existe algo quase repulsivo e fascinante na maneira como o fungo altera seus corpos e seus movimentos. Em determinados momentos, a transformação chega a provocar estranheza; em outros, torna-se genuinamente assustadora. O filme entende que uma boa criatura não precisa apenas atacar: ela precisa causar a impressão de que está se tornando algo que os personagens não conseguem compreender. E é essa sensação de desconhecido que mantém boa parte da tensão funcionando. ‘Zona Zero’ pode não ser o novo Invasão Zumbi, e talvez seja melhor que não tente ser. É um filme mais interessado na construção de uma ameaça biológica incomum, no confinamento e na transformação de seus personagens diante de uma situação extrema.
Há momentos em que a narrativa perde um pouco da força e nem todas as ideias recebem o mesmo desenvolvimento, mas quando o filme abraça o horror e deixa seus infectados dominarem a tela, ele se torna uma experiência genuinamente divertida e, em alguns momentos, bastante perturbadora. No fim, ‘Zona Zero’ funciona melhor quando observado por aquilo que é, e não pelo que se espera que seja por causa do passado de seu diretor. Não possui o mesmo coração de ‘Invasão Zumbi’, mas apresenta uma ameaça visualmente marcante, boas sequências de tensão e um conceito de infecção que consegue acrescentar novas possibilidades ao já desgastado cinema de zumbis. É um filme imperfeito, mas suficientemente inventivo e frenético para justificar sua existência — e, principalmente, para lembrar que ainda há maneiras interessantes de fazer o público temer os mortos-vivos.
Alexandre Carvalho – Editor
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Bom
Ficha Técnica:
Título: COLONY (ZONA ZERO)
País/Ano/Duração: Coreia do Sul, 2026, 122 min.
Classificação: 16 anos
Gênero: Terror, Ação, Ficção Científica
Direção: Yeon Sang-ho
Roteiro: Yeon Sang-ho, Choi Gyu-seok
Produção: Yoomin Hailey Yang
Estúdio: Wow Point, Smilegate
Distribuição no Brasil: Paris Filmes
Estreia: 15/10/2026
Elenco: Jun Ji-hyun (Gianna Jun), Ji Chang-wook, Koo Kyo-hwan, Kim Shin-rok, Shin Hyeon-bin, Go Soo

